*Por Elisangela Andrade
Advogados que concedem entrevistas à imprensa carregam uma responsabilidade que vai além da defesa de teses jurídicas: são tradutores de um universo técnico para um público que, em sua maioria, não domina o vocabulário do direito.
Quando a comunicação se perde em juridiquês, respostas evasivas ou excesso de tecnicismo, o resultado é o oposto do que se espera: em vez de esclarecer, confunde. E a consequência é grave, porque a sociedade depende da clareza para compreender como leis, normas e decisões judiciais impactam diretamente sua vida cotidiana.
O desafio está em equilibrar rigor técnico com acessibilidade. Falar simples não significa ser simplório, mas sim tornar compreensível aquilo que, por natureza, é complexo. O advogado que se apresenta como fonte deve ter em mente que sua função é explicar, não impressionar. É preciso abandonar a tentação de se refugiar em termos técnicos e optar por frases curtas, exemplos práticos e comparações que aproximem o tema da realidade das pessoas. Uma decisão judicial pode ser explicada como “a regra que passa a valer para todos”, um prazo processual pode ser traduzido como “o tempo máximo para agir”, e assim sucessivamente.
A objetividade é outro ponto crucial. Respostas vagas ou ambíguas, como o famoso “depende”, só reforçam a percepção de distanciamento entre o direito e a vida real. É claro que muitas questões jurídicas têm variáveis, mas cabe ao entrevistado delimitar cenários e indicar consequências práticas. Dizer “depende” sem explicar de que é abdicar da função de informar. Já reconhecer limites, apontar o que se sabe e indicar caminhos possíveis é uma forma honesta e útil de comunicação.
A preparação antes da entrevista também faz diferença. Ter em mente três mensagens-chave, elaborar um glossário com traduções simples de termos técnicos e ensaiar respostas em voz alta são estratégias que ajudam a evitar improvisos confusos. O advogado deve se perguntar: “O que o público precisa saber para se orientar ou agir?” Essa pergunta guia a construção de respostas que realmente cumprem o papel social da advocacia.
Durante a entrevista, a estrutura da fala deve seguir uma lógica clara: contextualizar o fato, explicar o impacto e indicar o que muda na prática. Essa sequência ajuda o público a acompanhar o raciocínio e a perceber relevância. Exemplos concretos são indispensáveis: “Para quem é microempreendedor, isso significa…” ou “Na vida de quem trabalha com carteira assinada, o efeito é…”. É nesse momento que o especialista deixa de ser apenas um técnico e se torna um comunicador.
Há ainda um aspecto ético que não pode ser ignorado. O advogado deve respeitar o sigilo, evitar autopromoção e não oferecer aconselhamento individual em entrevistas. A função é informar em termos gerais, sem transformar a exposição midiática em captação de clientela. Transparência sobre conflitos de interesse e cautela com previsões também são indispensáveis para preservar credibilidade.
Em tempos de desinformação, a clareza do discurso jurídico na imprensa é mais do que uma técnica: é um compromisso com a cidadania. Advogados que conseguem traduzir o direito em linguagem acessível cumprem um papel essencial de aproximação entre normas e pessoas. Ao escolher palavras simples, estruturar respostas objetivas e assumir responsabilidade ética, eles não apenas informam — fortalecem a confiança da sociedade na justiça.
*Elisangela Andrade é formada em Jornalismo desde 2000 e possui experiência de mais de 10 anos como assessora de imprensa. Também é formada em direito, tendo atuado como advogada na área trabalhista. Possui pós-graduação em Advocacia Extrajudicial.



