O crescimento das fintechs e do endividamento no Brasil colocou em evidência um aparente paradoxo: o mercado de crédito nunca contou com tantos participantes, mas o número de brasileiros endividados continua em patamar recorde. Dados apresentados pela Forbes mostram que as fintechs de crédito concederam R$ 53,8 bilhões em empréstimos em 2025, crescimento de 51% em relação ao ano anterior, enquanto o país alcançou 83,5 milhões de pessoas endividadas. Em entrevista à publicação, o advogado Thiago Amaral, sócio do Barcellos Tucunduva Advogados e especialista nos segmentos de Meios Eletrônicos de Pagamento e Fintechs, analisou os fatores que explicam esse cenário.
Fintechs e endividamento não mantêm relação automática
Segundo Thiago Amaral, o aumento do número de instituições financeiras não foi suficiente para reduzir o custo do crédito. A concorrência trouxe benefícios importantes para os serviços bancários, eliminando diversas tarifas e ampliando a oferta de soluções digitais. No entanto, esse efeito não se repetiu nas operações de crédito.
De acordo com o especialista, milhões de consumidores passaram a contratar empréstimos em diferentes instituições ao mesmo tempo. Como muitas dessas operações ocorrem sem garantias relevantes, cresce o risco de superendividamento e, consequentemente, aumenta também a inadimplência. Esse cenário leva as instituições financeiras a elevar os juros para compensar as perdas decorrentes do maior risco das carteiras.
Open Finance ainda não alcançou todo o seu potencial
Para Thiago Amaral, uma das ferramentas capazes de melhorar esse cenário é o Open Finance. O compartilhamento autorizado de dados financeiros permite que bancos e fintechs conheçam melhor o perfil do consumidor e realizem análises de crédito mais precisas.
Entretanto, a adesão ainda avança de forma gradual. Segundo o advogado, muitos consumidores desconhecem os benefícios do sistema ou demonstram preocupação com a segurança das informações compartilhadas. Como consequência, instituições financeiras continuam precificando operações com base em informações incompletas, incorporando margens maiores de risco às taxas de juros.
Regulação inaugura nova fase para as fintechs
A reportagem também destaca as recentes mudanças regulatórias promovidas pelo Banco Central. As novas exigências aumentaram significativamente o capital mínimo necessário para o funcionamento de diversas categorias de fintechs.
Na avaliação de Thiago Amaral, esse movimento representa uma mudança de foco do regulador. Após incentivar a entrada de novos participantes no mercado, o Banco Central passou a priorizar a solidez financeira, a governança e a capacidade de as instituições sustentarem seu crescimento com níveis adequados de capital. Assim, a nova etapa busca equilibrar inovação, concorrência e estabilidade do Sistema Financeiro Nacional.
O especialista conclui que o desafio do mercado deixou de ser apenas ampliar a oferta de crédito. Para ele, o próximo passo depende da melhoria da qualidade das informações utilizadas na análise dos tomadores, do fortalecimento dos mecanismos de avaliação de risco e da consolidação de um ambiente regulatório capaz de estimular inovação sem comprometer a segurança do sistema financeiro.
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